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Author Topic: Relacionamento Brasil, EUA  (Read 934 times)

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Offline ProudDaddy

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Relacionamento Brasil, EUA
« on: January 05, 2010, 06:44:02 AM »
Só para contrariar II

     Brasil - Sergio Leo   Valor Econômico - 04/01/2010      

Em um dos encontros reservados entre autoridades  brasileiras e americanas no ano passado, o assessor especial da Presidência,  Marco Aurélio Garcia, tentou explicar ao secretário de Estado Adjunto dos EUA  para o Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela, a razão da abstenção do Brasil  nas votações das Nações Unidas que condenaram o Irã por seus esquivos movimentos  na área nuclear e pelo desrespeito aos direitos humanos. O Brasil não apoiou o  Irã, absteve-se, para não brecar a aproximação com o país e para reforçar as  pressões em favor dos direitos humanos e contra o uso bélico da energia nuclear,  argumentou o brasileiro.

 Valenzuela, segundo relato levado ao presidente Luiz  Inácio Lula da Silva, comentou não ter pensado nessa justificativa para o  comportamento do Brasil nas Nações Unidas, que intrigou parceiros internacionais  do Brasil. Poucas semanas antes, o presidente dos EUA havia se dado ao trabalho  de, em uma carta a Lula, explicar as razões pelas quais os EUA não consideram  conveniente a aproximação com o Irã, entre outras divergências com o governo  brasileiro. Garcia havia falado em "frustração" com Obama, mas, em seguida, o  governo brasileiro mudou de tom, e o próprio Garcia adotou tom otimista.

 Também em encontro recente, o presidente Lula deu  explicações parecidas ao presidente francês, Nicholas Sarkozy, argumentando  estar se esforçando para trazer o Irã às boas práticas da comunidade  internacional. Sarkozy agradeceu a explicação e comentou que a França já teve  essa ilusão, desfeita pelos próprios iranianos.

 Os episódios com Valenzuela e Sarkozy podem servir  de exemplo de ingenuidade e megalomania da política externa brasileira, ao  sonhar com sucesso onde grandes potências, com muito mais recursos de poder, só  tiveram frustrações. As duas conversas podem servir para outra constatação,  porém. A de que os movimentos diplomáticos de Lula e seus assessores na área  (Marco Aurélio Garcia e o embaixador Celso Amorim) têm razões muito mais  complexas e merecedoras de debate do que a classificação rasteira de  "antiamericanismo" , aposta por alguns críticos ideológicos da política externa  gestada em Brasília. Aliás, também servem para mostrar a inutilidade, para fins  práticos, do rótulo de "ideológica" costumeiramente aplicado sobre a mesma  política externa.

 Que há ideologia na política exterior, não há  dúvida, sempre houve e haverá. Como o nome diz, é uma política, não uma técnica,  como querem fazer crer alguns críticos e políticos. Já a etiqueta de  "antiamericana" parece colar com dificuldade em uma prática diplomática que  exibe com orgulho os laços firmados com os mandatários dos Estados Unidos, que  preza a troca constante de impressões com a Casa Branca e o Departamento de  Estado, e que mantém um relacionamento cada vez mais intenso em áreas como  diplomacia, comércio e defesa.

 Quem quer saber o que, de fato, é política externa  condicionada por um tom antiamericano e uma agressiva postura ideológica,  deveria imaginar se, entre o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e as  autoridades dos EUA poderia haver diálogo como o travado entre Brasília e  Washington. Claro, Brasil e EUA têm divergências - e o próprio Valenzuela, em  sua passagem pelo Brasil, esforçou-se heroicamente para minimizá-las, lembrando  até que os EUA também se veem de vez em quando às turras com o Canadá.

 Evidentemente, uma conversa com autoridades  encarregadas da política externa sobre os EUA tem chances consideráveis de  incluir referências críticas à ação dos EUA no continente. Mas não é uma  invenção brasileira a agressiva ação americana de apoio a regimes  antidemocráticos no passado recente da região. E foi o próprio Obama, não algum  ideólogo do Planalto, quem, em discurso de campanha para a comunidade cubana em  Miami, em 2008, questionou os Estados Unidos pelos anos de "políticas  fracassadas" e pressões "por reformas de cima para baixo" na América Latina.

 O marco da impressão de antiamericanismo colada à  política externa foi a atuação do Itamaraty nas negociações da Área de Livre  Comércio das Américas. Na discussão da Alca, na prática, a visão estratégica do  governo Lula se assemelhava à do governo Fernando Henrique Cardoso, contrária às  exigências americanas em matéria de patentes, investimentos e serviços, e cética  em relação a ganhos substanciais na redução das barreiras comerciais  importantes, ao aço, ao etanol, ao suco de laranja brasileiros.

 Os dois governos diferenciaram- se em relação à  tática. Com FHC havia a ideia de seguir com as negociações e recusar o acordo se  não conviesse ao Brasil. Com Lula, o ministro Celso Amorim (que chegou a ser  cogitado para chanceler pelo candidato derrotado, José Serra), calejado pela  experiência como negociador da Rodada Uruguai na Organização Mundial do  Comércio, impôs de cara uma definição imediata sobre temas espinhosos - e a  negociação naufragou. É bem verdade que os negociadores escalados por Amorim já  apontavam para o naufrágio.

 Há, hoje, um esforço genuíno em Brasília de  aproximação com os EUA. Além do diálogo político, como resultado do fórum de  altos empresários (criado ainda no governo Bush e de parcos resultados até  agora), já se admite no governo brasileiro avançar na negociação de um acordo  contra a bitributação, velha reivindicação empresarial. A ameaça de retaliar os  EUA contra os subsídios americanos ilegais ao algodão tem sido administrada com  moderação, sem arroubos retóricos. Abriram-se importantes centros de  distribuição da Agência de Promoção de Exportações para colocação de produtos  brasileiros no mercado - já que, mais que tratados de livre comércio, o que faz  falta para ingressar no mercado americano é de ações de promoção de  exportação.

 Há erros e fiascos na política externa brasileira.  Mas o saldo geral é claramente positivo, embora essa avaliação possa ser posta  em questão, desde que em um debate sério, sem as mistificações sustentadas por  argumentos simplórios como os do "antiamericanismo do Itamaraty" e o da  "ideologização da política externa". Que este ano eleitoral permita esse debate  sério é um desejo da coluna para 2010.

 Sergio Leo é repórter especial em Brasília e  escreve às segundas-feiras